
“…ele me disse: a minha graça te basta, porque
o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.
…de boa vontade antes me gloriarei nas minhas
fraquezas… porque quando estou fraco, então é que
sou forte”. (II Co 12.9,10)
Num mundo em que a regra tem sido a “sobrevivência do mais forte”, como gloriar-se das fraquezas? Por outro lado, sobreviver não é viver. É lutar renhidamente para manter-se vivo. É, mesmo caindo de exaustão, levantar-se para continuar a enfrentar novo combate por um prêmio perecível – a sobrevida. Não a vida em plenitude mas, “matar pra não morrer”.
Pensando no “fraco “aos olhos humanos – digno de pena, desprezo, descaso e descarte. Visto como “alimento para os mais fortes e aptos”. Às vezes usado para suprir a corrida dos superiores. Lembro de parte da letra do meu hino preferido no Cantor Cristão “Não é dos fortes a vitória, nem dos que correm melhor mas dos fiéis e sinceros, como nos diz o Senhor”. O alerta do poeta para os que confiam em suas forças e capacidades, para vencer aos olhos deste mundo alcançando um prêmio perecível é: o custo é a vida e o único lucro possível será sobreviver e ouvir os aplausos temporários, até que surja outro “vencedor”.
Uma das pessoas que exemplifica bem a “loucura do Evangelho para os que crêem”, é o apóstolo Paulo. Aos olhos do seu mundo, e do nosso também, Saulo de Tarso era a personificação do “vencedor”. Rico, culto, cidadão romano, judeu de nascimento, “político”, religioso, confiável. Um líder nato na representação do que o seu povo considerava mais sagrado – o zelo pela Lei. Até sua viagem a Damasco, o embaixador dos inimigos do Caminho considerava-se o primeiro da lista dos vencedores de sua época. Saulo tinha nas mãos autorização para exercer seu poder contra os fracos seguidores de Jesus – prender, castigar, confiscar e o que mais considerasse justo fazer aos infratores da sagrada “Lei de Moisés”, reinterpretada por um certo nazareno chamado Jesus que se dizia em vida, o Messias Prometido, o Libertador de Israel.
A viagem para Damasco seria uma surpresa para os fracos do Caminho nos planos de Saulo. Contudo, o Senhor é expert em frustrar os planos contra seus filhos e, na estrada para Damasco, decidiu chamar a atenção de Saulo sobre sua concepção de vida e suas atitudes como perseguidor declarado do novo Israel, “a menina dos olhos de Deus”. O forte e vencedor Saulo aprenderia de uma só vez o que os doze tiveram três anos para aprender – humildade, dependência, reconhecimento de suas fraquezas e limites, doação, sofrimento, desconfiança, insegurança, julgamento injusto, amor pelo próximo, cessão de direitos para servir Jesus, o Caminho. Saulo possivelmente orgulhava-se do que era – forte, vencedor, superior, um sobrevivente em meio ao mundo dos conquistados de Roma. Entretanto, Jesus o via de um modo diferente “este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome perante os gentios, os reis, e os filhos de Israel; eu lhe mostrarei quanto lhe cumpre padecer pelo meu nome.” (Atos 9.15,16)
Aquele encontro, na estrada para Damasco modificou não só a vida de Paulo mas a vida da igreja primitiva e por conseqüência a vida de todos nós, os que cremos. O mesmo Paulo passa de perseguidor a perseguido rapidamente, pois logo após seu batismo o encontramos pregando sobre Jesus na sinagoga em Damasco. O impacto foi tão grande que muitos se convertem e Paulo tem que ser protegido pelos “fracos irmãos do Caminho”, descendo-o em um cesto pelo muro da cidade para que não fosse morto. Obrigatoriamente ele teve que repensar quem era e em quê se tornara após aquele encontro com Jesus.
Algum tempo depois, em sua segunda carta à igreja de Corinto encontramos o resultado desta reflexão, “Mas ele me disse: "Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza". Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte”. (II Co 12.9,10). Paulo expressa sua nova condição de fraco, de total dependência da graça divina para que nele repousasse o poder de Cristo. Por amor a Cristo, Paulo assume sua nova condição – servo, escravo, disponível completamente para obedecer ao seu Senhor, “Pois alguns dizem: "As cartas dele são duras e fortes, mas ele pessoalmente não impressiona, e a sua palavra é desprezível". (II Co 10.10). Ele levou seu ministério e sua condição às últimas conseqüências (2 Co 11.16 a 33), vivendo tudo pelo único poder do fraco – A Graça de Deus!
A graça de Deus em Cristo marcara a tal ponto a alma do apóstolo e o seu ministério “aos gentios, aos reis e aos filhos de Israel”; conforme o propósito de Cristo “Mas o Senhor disse a Ananias: "Vá! Este homem é meu instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e seus reis, e perante o povo de Israel. Mostrarei a ele o quanto deve sofrer pelo meu nome". (Atos 9.15,16) que das 13 cartas que ele escreveu aos seus filhos na fé (Romanos a Filemon) todas se encerram do mesmo modo “A graça seja convosco”.
“Eu de muito boa vontade gastarei e me deixarei gastar pelas vossas almas”. (Paulo, aos irmãos de Corinto).
Desejo fazer coro com Paulo, repetindo esta declaração de amor às ovelhas da casa de Israel. Amor que só se experimenta pela GRAÇA DE DEUS – o poder dos fracos no exercício do ministério.
No Senhor de toda graça,
Léa de Souza dos Reis
São Luis, 11 de fevereiro de 2009

6 comentários:
Oi Mãe, obrigado por voltar a escrever! E vivam os fracos!
Querida Léa, parabéns pela sua volta. O texto está magnífico! O exemplo do apóstolo Paulo e a reflexão que você faz em cima dos textos sagrados são valiosíssimos para a edificação das nossas vidas. Que nosso querido Deus e Pai continue lhe capacitando para escrever tão belas meditações. É muito bom ler sempre seus trabalhos. Um forte abraço.
P&Marília
Irmã Léa!!!
Parece que a vejo falar de Paulo em uma das conversas informais que surgem falando de "qualquer coisa", e depois de ler esse texto maravilhoso, realmente percebo qta falta estava fazendo ler seus textos e qta saudade tenho de suas conversas e experiências contadas.
Lembrar de Paulo me faz ver que ainda somos (falo antes de mim) verdadeiros fracos pq n o qremos ser... e qto vale ser. Me recordo de um comentário abençoado na EBD, em que um jovem disse que a verdadeira felicidade que dizemos que Deus nos proporciona deve ser vista e esperada no âmbito espiritual... pois a graça dEle nos basta... é fácil entender com o raciocínio, mas tão difícil entender com a vida, na prática. O que posso dizer para concluir é que meu coração está cheio, cheio de gratidão pelas graças, misericórdias de Deus e a força que muitas vemos não atribuímos a Ele, que só Ele dá. Depois de ter falado tanto ao meu coração, compartilho um texto que fala por demais a mim: Salmos 113:9-14.
Bjão!!! Sam
"Pois, quando sou fraco é que sou forte”....como agora, depois de ler o seu txt..fui abençoada..neste momento em que vivo!...as palavras tem um peso diferente qdo nós a estamos vivendo "literalmente"...
..q Deus abençoe sua vida amada "irmã/mãe" léa...
...bjooo...
Como numa música de Marcelo Camelo, "O Vencedor"... Quase que um hino pra quem conseguiu trransformar a derrota e a frazqueza num bem mais valioso que a própria conquista. Ela em determinada parte diz mais ou menos assim:
"Eu que nunca fui assim
muito de ganhar,
junto às mãos ao meu redor
Faço o melhor que sou capaz
só pra viver em paz."
Paz aê pra ti tia! Já vim aqui outras vezes mas não comentei, mas seus textos sempre me edificam. Mamãe me disse que a senhora queria ver meu blog, pois bem, vou lhe passar o link, ele não tem o intúito de informar nem nada. Ele é apenas a oficina da minha própria mente!
Eis o link: www.secosarcasticosimpatico.blogspot.com
Léa querida, parabéns por mais um ano de vida, parabéns por ser brilhante, parabéns pela sabedoria, parabéns pela busca incesante do conhecimento de Deus, parabéns pelo seu caráter, parabéns pela vocação, parabéns pelo exercício do dom do ensino, parabéns pela vida cristâ e testemunho, enfim parabéns por seres quem és. bjs da amiga. Gigi
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